Tuesday, September 20, 2011

Olá a tod@s,

reproduzo aqui um artigo publicado originalmente na Revista do ISAT no. 7 em 2009 escrito por mim e meus orientandos de Iniciação Científica Danielle Bessa, Fabiana Guedes, Rosana de Freitas e Vinicius Cruz de Moura.


Citações:

LANZETTI, Rafael et al. Procedimentos Técnicos de Tradução - Uma proposta de reformulação. Revista do ISAT, no. 7. São Gonçalo-RJ, 2009. Disponível em http://revista.isat.edu.br/?page_id=54. Acesso em 20/09/2011.


Procedimentos técnicos de tradução _ Uma proposta de reformulação
Rafael Lanzetti, Danielle Bessa, FabianaGuedes, Rosana de Freitas e Vinicius Cruz de Moura
Resumo: Este artigo apresenta uma nova tabela de procedimentos técnicos de tradução, recategorizada e ampliada, a partir das propostas de Barbosa (1990) e de Lanzetti (2006). Nesta tabela, os procedimentos foram categorizados de acordo com os paradigmas schleiermacherianos de tradução estrangeirizadora e domesticadora (2001ª e b). Com base nessa recategorização, redefinimos os procedimentos técnicos de tradução e incluimos outros a partir da análise de traduções selecionadas, feitas por alunos e profissionais de tradução ao longo de dois anos, de 2006 a 2008.
Palavras-chave: tradução, procedimentos técnicos, Schleiermacher
Este artigo tem por objetivo apresentar uma proposta de reformulação, recategorização e ampliação da tabela de procedimentos técnicos de tradução compilada por Heloisa Barbosa em seu livro Procedimentos técnicos de tradução: uma nova proposta de 1990.
Procedimentos técnicos de tradução são, segundo Barbosa (1990: 17), “ações de cunho lingüístico e técnico praticadas por tradutores a fim de realizar pragmaticamente o processo de tradução”. Em seu livro, Barbosa faz um levantamento dos modelos de procedimentos tradutórios de Vinay-Darbelnet (1977), Nida (1964 e 1966), Catford (1965), Vázquez-Ayora (1977) e Newmark (1981). A partir desses modelos, Barbosa compila sua própria proposta de como traduzir a partir de um quadro de categorização dos procedimentos técnicos, pois, segundo a autora, “devido às discrepâncias entre os modelos descritivos de procedimentos técnicos da tradução e à divergência terminológica entre eles, é necessário propor-se uma nova caracterização de tais procedimentos” (BARBOSA, 1990: 63). Esse quadro é reproduzido a seguir:
Tabela 1: Proposta de categorização dos procedimentos técnicos da tradução
Convergência do sistema lingüístico, do Estilo e da Realidade Extralingüística
Divergência do sistema lingüístico
Divergência do Estilo
Divergência da realidade extralingüística
Tradução palavra-por-palavra
Tradução literal
Transposição
Modulação
Equivalência
Omissão VS Explicitação
Compensação
Reconstrução
Melhorias
Transferência
Transferência com explicação
Decalque
Explicação
Adaptação
(BARBOSA, 1990: 93)
No entanto, pode ser difícil estabelecer fronteiras entre os procedimentos técnicos da tradução, uma vez que um procedimento pode requerer outro, ser mesclado com um terceiro, ou mesmo ser conseqüência de um quarto. Talvez, na atividade tradutória, alguns dos procedimentos e estratégias que os sujeitos utilizam não façam parte dessas categorizações. Algumas vezes, os procedimentos e estratégias podem aparecer acoplados uns aos outros, e seria difícil dizer onde termina um e começa outro, ou qual deles está numa posição superior na hierarquia de uma determinada ação.
A fim de ampliar o leque de procedimentos, recategorizá-los e defini-los com mais especificidade, Lanzetti (2006) propõe uma nova tabela, apresentada a seguir.
    1. Nova Tabela de Procedimentos Técnicos de Tradução
Lanzetti decidiu, a partir dos paradigmas tradutórios schleiermacherianos (SCHLEIERMACHER, 2001b), dividir os procedimentos em duas categorias principais – procedimentos estrangeirizadores e procedimentos domesticadores. Os procedimentos estrangeirizadores aproximam o texto de chegada do texto original através do recurso de manutenção de itens lexicais, estruturas e estilo. Os procedimentos domesticadores afastam o texto de chegada do texto original, aproximando a tradução das estruturas linguísticas e da realidade extratextual da língua e da sociedade-alvo.
A seguir, apresentamos a tabela e descrevemos cada um dos procedimentos categorizados:
Tabela 2: Procedimentos técnicos de tradução – Reformulação proposta por Rafael Lanzetti (2006)
  1. Categorias de procedimentos
    1. Estrangeirizadores
    2. Domesticadores
    1. Procedimentos estrangeirizadores
      1. Tradução palavra-por-palavra
      2. Manutenção
        1. de itens lexicais do texto-fonte (empréstimo)
          1. sem aclimatação (empréstimo direto)
          2. com aclimatação (aportuguesamento)
          3. decalque
          4. hibridismo
        2. de estruturas sintáticas do texto-fonte
          1. manutenção da ordem dos elementos sintáticos
        3. do estilo do texto-fonte
            1. manutenção do uso de sinais de pontuação
            2. manutenção do registro
            3. manutenção do layout
            4. manutenção do uso de voz passiva/voz ativa
            5. manutenção do uso de coordenação/subordinação
            6. manutenção do uso de marcadores do discurso
            7. manutenção do uso de referências (endóforas/exóforas)
            8. manutenção da adjetivação
            9. manutenção da complexidade/fluidez estilística
        4. de itens culturais da cultura-fonte
    2. Prodedimentos domesticadores
      1. Domesticação do sistema linguístico
        1. Transposição
        2. Modulação
        3. Equivalência
          1. de expressões idiomáticas, ditados, provérbios etc.
          2. funcional
        4. Sinonímia
        5. Paráfrase
      2. Domesticação do estilo
        1. Omissão
        2. Explicitação
        3. Generalização (uso de hiperônimo)
        4. Especificação (uso de hipônimo)
        5. Compensação
          1. Ibidem
          2. Alibi
        6. Reconstrução
          1. sintática
          2. semântica
        7. Equivalência estilística (melhoria)
        8. Mudança de registro
        9. Mudança de complexidade/fluidez estilística
        10. Adaptação
      3. Domesticação da realidade extra-linguística
        1. Transferência
        2. Explicação
          1. intratextual (entre parênteses, entre vírgulas etc.)
          2. pára-textual (notas do tradutor, prefácio etc.)
        3. Ilustração
1.2 Descrição dos procedimentos estrangeirizadores
Os procedimentos estrangeirizadores são dois, a saber: tradução palavra-por-palavra e manutenção.
A tradução palavra-por-palavra pressupõe que o texto de chegada terá o mesmo número de palavras do texto original, obrigatoriamente na mesma ordem sintática.
Ex.: She went to the supermarket yesterday.
Ela foi ao supermercado ontem.
Neste exemplo, embora o número de palavras não seja o mesmo na tradução, por conta da contração da preposição e do artigo definido, o procedimento empregado foi a tradução palavra-por-palavra. Esse procedimento é utilizado todas as vezes em que o texto original não apresenta nenhuma dificuldade tradutória lexical, estrutural ou cultural e sua tradução pode ser feita sem nenhuma alteração lexical, sintática ou extratextual. Embora a tradução palavra-por-palavra tenha ganhado conotações pejorativas ao longo da evolução da teoria da tradução, esse procedimento é utilizado em larga escala, principalmente em textos técnicos por conta de sua simplicidade sintática e consequente universalização estrutural.
A manutenção, denominada anteriormente por outros autores tradução literal, é subdividida em quatro subcategorias: manutenção de itens lexicais do texto-fonte, manutenção de estruturas sintáticas do texto-fonte, manutenção do estilo do texto-fonte e manutenção de itens culturas da cultura-fonte.
A manutenção de itens lexicais do texto-fonte, também conhecida como empréstimo, ocorre quando o tradutor decide manter, no texto de chegada, um item lexical da língua-fonte. O empréstimo pode ser feito sem aclimatação ortográfica quando, por exemplo, o tradutor decide manter a palavra feedback no texto de chegada em português; ou com aclimatação, quando palavras estrangeiras adquirem nova forma ortográfica condizente com o sistema fonético-ortográfico da língua de chegada. Ex.: New York > Nova Iorque, whisky > uísque, football > futebol. O empréstimo pode ainda ser feito por decalque, em que os morfemas formadores da palavra na língua-fonte são traduzidos para a língua de chegada (ex.: skyscraper > arranha-céus, hi-fi > alta fidelidade, science-fiction > ficção científica), e por hibridismo, em que um neologismo é formado a partir de morfemas lexicais de duas ou mais línguas diferentes (ex.: iceberg, do ing. ice, gelo + alem. Berg, montanha; e agricultura, do gre. ager, campo + lat. cultura).
A manutenção de estruturas sintáticas do texto-fonte é utilizada quando tais estruturas ou ordens sintáticas da língua-fonte coincidem com a estrutura ou a ordem sintática da língua-alvo.
Ex.: Long time no see you!
Há quanto tempo não vejo você!
Neste exemplo, o número de palavras do texto-alvo não é o mesmo do texto-fonte, portanto o procedimento não pode ser caracterizado como tradução palavra-por-palavra. No entanto, a ordem estrutural permaneceu a mesma. No texto-fonte temos [adj. adv. de tempo] + [adj. adv. de negação] + [verbo na 1ª pess. do sing.] + [obj. direto], exatamente a mesma estrutura do texto de chegada.
No procedimento de manutenção do estilo do texto-fonte, podem ser mantidos os sinais de pontuação do texto-fonte, o registro (formal, neutro, informal), o layout (disposição gráfica dos elementos do texto na página), a frequência de uso da voz passiva e/ou da voz ativa, o uso de coordenações e/ou subordinações, o uso de marcadores do discurso (certo, agora, veja bem, entende, quero dizer, dentre outros), o uso de referências dêiticas (intratextuais, ou endóforas) através de pronomes dêiticos, sinonímia e substituição lexical, e referências exóforas (cujos referentes não estejam presentes no texto); o uso de adjetivação e a complexidade ou fluidez estilística com que o texto-original tenha sido escrito.
Na manutenção de itens culturais da cultura-fonte, o tradutor decide reproduzir o item cultural do texto-fonte no texto de chegada sem nenhuma explicação ou explicitação. Isso ocorre principalmente quando o tradutor julga que o item cultural presente no texto-fonte é compreensível ao público-leitor do texto de chegada.
1.3 Descrição dos procedimentos domesticadores
1.3.1 Domesticação do sistema lingüístico
Os procedimentos de domesticação do sistema linguístico pressupõem mudanças na estrutura do texto-fonte ao traduzi-lo à língua-alvo para que se adeque à estrutura sintática e lexical da língua de chegada.
1.3.1.1 Transposição
Transposição é a mudança da ordem sintática de um ou dois elementos sintáticos do texto-fonte. Ocorre por razões de obrigatoriedade sintática ou pragmática da língua de chegada.
Ex. 1: Rick is a very tall man.
Rick é um homem muito alto.
Neste exemplo, o sintagma nominal [very tall] foi transposto da posição anterior ao núcleo do sujeito no texto original para a posição posterior ao núcleo do sujeito no texto de chegada. Aqui, a transposição é pragmaticamente obrigatória, já que a sentença [Rick é um muito alto homem] seria apragmática.
Ex. 2: German scientists discovered a new type of stem-cell on Friday.
Na sexta-feira, cientistas alemães descobriram um novo tipo de célula-tronco.
Neste exemplo, a transposição do adjunto adverbial de tempo do fim da sentença no texto-fonte para o início da sentença no texto-alvo não era obrigatória. No entanto, a partir de observações de textos jornalísticos, parece que, em português do Brasil, prefere-se colocar os adjuntos adverbiais de tempo e lugar no início das sentenças, ao contrário do inglês americano, em que os adjuntos adverbiais aparecem com mais frequência no final das sentenças.
1.3.1.2 Modulação
A modulação ocorre quando a palavra do texto-fonte muda de classe gramatical ao ser traduzida para a língua-alvo.
Ex. 1: Introducing the concept of gene.
Introdução ao conceito de gene.
Neste exemplo, a palavra [introducing], um verbo no gerúndio, é modulada para um substantivo na língua de chegada.
A modulação também ocorre quando um verbo no gerúndio é traduzido para o infinitivo ou vice-versa.
Ex. 2: Connecting the cables.
Como conectar os cabos.
1.3.1.3 Equivalência
O procedimento de equivalência é dividido em duas subcategorias – equivalência de expressões idiomáticas, ditados e provérbios; e equivalência funcional.
A equivalência de expressões idiomáticas, ditados e provérbios ocorre quando há, na língua de chegada, uma expressão idiomática, ditado ou provérbio com o mesmo valor semântico e que use os mesmos símbolos ou alusões da expressão idiomática da língua-fonte.
Ex. 1: Not all that glitters is gold.
Nem tudo que reluz é ouro.
Ex. 2: Better late than never.
Antes tarde que nunca.
Ex. 3: Can you give me a hand?
Você pode me dar uma mão?
Nos dois primeiros exemplos, provérbios populares ingleses foram traduzidos pelos correspondentes na língua portuguesa, que utilizam os mesmos símbolos e possuem o mesmo valor semântico dos provérbios da língua-fonte. No exemplo 3, a expressão idiomática [to give a hand] foi traduzida pela sua correspondente em português, que utiliza igualmente o mesmo referente [mão] e possui o mesmo valor semântico.
A equivalência funcional ocorre quando a expressão idiomática, provérbio ou ditado da língua-fonte não possui correspondente na língua-alvo com os mesmos símbolos e referentes, mas utiliza outros para chegar ao mesmo valor semântico. Possuem, portanto, a mesma função semântica.
Ex. 4: The one who sleeps with dogs wakes up with fleas.
Quem se junta aos porcos, farelo come.
Ex. 5: The squeeky wheel gets the grease.
Quem não chora não mama.
No exemplo 4, o ditado popular foi traduzido por outro com a mesma estrutura lógico-sintática, porém com outros referentes. No exemplo 5, o ditado traduzido por equivalência funcional não possui a mesma estrutura sintática, mas expressa o mesmo valor semântico-funcional.
1.3.1.4 Sinonímia
A sinonímia é utilizada quando o tradutor traduz um elemento lexical do texto-fonte por um sinônimo na língua-alvo.
Ex. 1: My uncle used to play the accordion we he was young.
Meu tio tocava sanfona quando era jovem.
Neste exemplo, o tradutor decidiu utilizar um sinônimo para [accordion], sanfona, no lugar de acordeon.
Ex. 2: Chelsea won the championship on the last round.
O Chelsea venceu o certame na última rodada.
Neste exemplo, o tradutor decidiu utilizar o sinônimo certame no lugar da tradução imediata para championship, campeonato.
1.3.1.5 Paráfrase
A tradução por paráfrase ocorre quando o tradutor decide utilizar estruturas mais longas e menos diretas para expressar, no texto-alvo, elementos do texto-fonte. O eufemismo geralmente é construído a partir de paráfrases.
Ex. 1: In my opinion, the President lied about the corruption scandal.
Na minha opinião, o presidente faltou com a verdade em relação ao escândalo de corrupção.
Neste exemplo, o tradutor decidiu usar uma estrutura parafrástica eufemística para expressar o verbo [to lie] do texto-fonte.
A paráfrase também ocorre quando uma estrutura sintática da língua-fonte precisa ser traduzida por uma estrutura mais longa na língua-alvo.
Ex. 2: How proficient are you in Chinese?
Como você avalia seu grau de proficiência em chinês?
Aqui o tradutor utilizou uma estrutura parafrástica, portanto mais longa, para expressar o mesmo valor semântico da estrutura sintética da língua-fonte.
1.3.2 Domesticação do estilo
Os procedimentos de domesticação do estilo pressupõem mudanças na estrutura estilística do texto-fonte para que se adeque à estrutura estilístico-pragmática da língua-alvo.
1.3.2.1 Omissão
A omissão é utilizada quando o tradutor decide não traduzir para o texto-alvo algum item lexical ou estrutura do texto-fonte.
Ex.: Capoeira, an interesting blend of dance and martial arts, is facing gradual revival in Brazil.
A capoeira está passando por uma gradual revitalização no Brasil.
Aqui o tradutor decidiu omitir o aposto relacionado à capoeira no texto-alvo, talvez por considerar que o público-leitor do texto traduzido não necessitava da explicação dada no texto-fonte.
1.3.2.2 Explicitação
O procedimento de explicitação é utilizando quando o tradutor decide acrescer ao texto-alvo alguma informação não expressa no texto-fonte.
Ex.: The IRS may collect over 2 billion dollars in taxes this year.
Este ano, a Receita americana deve arrecadar mais de 2 bilhões de dólares em impostos.
Neste exemplo, o tradutor decidiu explicitar a informação de que se tratava da Receita dos Estados Unidos, já que tal informação, subentendida no texto original, daria a impressão, no texto-alvo, de que se tratava da Receita Federal brasileira.
Ex. 2: Elite Squad was the Golden Bear Award-Winner in 2008.
O filme Tropa de Elite foi o vencedor do Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim em 2008.
Neste exemplo, o tradutor explicitou o item lexical filme e a informação de que o prêmio foi concedido no Festival de Cinema de Berlim.
1.3.2.3 Generalização e especificação
Os procedimentos de generalização e especificação ocorrem quando o tradutor utiliza, para traduzir um determinado item lexical do texto-fonte, hiperônimos e hipônimos, respectivamente.
Ex. 1: When I opened the door, my palmtop was not there anymore.
Quando abri a porta, meu computador não estava mais lá.
Neste exemplo, o tradutor utilizou generalização do termo palmtop, pois usou o hiperônimo computador.
Ex. 2: The famous Brazilian “farofa” is made with fried flour and sausages.
A famosa farofa brasileira é feita com farinha de mandioca e linguiça.
Aqui o tradutor decidiu especificar o tipo de farinha utilizada através de um hipônimo, farinha de mandioca. O uso desse recurso pode ter ocorrido porque o tradutor, de posse da informação que faltava no texto-fonte, considerou que era seu dever incluí-la no texto-alvo.
1.3.2.4 Compensação
Compensação é a tentativa, por parte do tradutor, de utilizar o mesmo recurso estilístico usado no texto-original, porém com referentes ou símbolos diferentes. A compensação é ibidem quando ocorre no mesmo lugar (parágrafo ou período) onde o recurso estilístico reproduzido do texto-original se encontra; e alibi quando o tradutor, vendo-se impossibilitado de reproduzir o mesmo recurso estilístico do texto-original no mesmo lugar em que aparece, decide fazê-lo em outro parágrafo ou outro período do texto-alvo. A compensação é utilizada geralmente quando há, no texto-fonte, incidências de jogos de palavras, rimas e anedotas.
Ex.: “You sit here and car.”
“OK, what kind of car am I?”
“A 280-Zit.”
“Você fica aqui e finge que é um carro”
“Tá certo, e que tipo de carro eu sou?”
“Um Mercedes Classe A-cne.”
No diálogo acima, retirado de um filme de comédia americano, dois irmãos estavam conversando sobre a promissora carreira de modelo de Kate, a irmã. A menina queria treinar para o próximo trabalho que iria realizar, o de modelo numa exposição de automóveis. Para tanto, ela pede que o irmão finja ser um carro (…you sit here and car.), a fim de que possa fazer as poses de modelo. O irmão adolescente pergunta a Kate que tipo de carro ele seria, ao que ela responde 280-Zit, uma alusão ao Datsun 280Z, um carro luxuoso conhecido do público norte-americano, acrescido do jogo de palavra [Z zit], uma alusão ao fato de o irmão ser um adolescente cheio de acnes. Ao traduzir, o tradutor, vendo-se impossibilitado de usar o mesmo referente para produzir o jogo de palavras, decidiu usar o Mercedes Classe-A, um carro igualmente luxuoso e conhecido do público-leitor brasileiro, com o qual poderia construir a polissemia utilizando a palavra acne, mantendo assim a comicidade do texto original.
1.3.2.5 Reconstrução
O procedimento de reconstrução pressupõe mudanças na ordem sintática e na estrutura estilística de toda a sentença (reconstrução sintática) ou na estrutura lógico-semântica da sentença (reconstrução semântica) a fim de manter o valor semântico do texto-fonte.
Ex. 1: We examined the patients after taking the prescribed medicine and came to the conclusion that the substances utilized are harmless.
Os pacientes foram examinados após tomarem a medicação prescrita e chegou-se à conclusão de que as substâncias utilizadas são inofensivas.
Neste exemplo, a voz ativa do texto-fonte foi reconstruída para a voz passiva no texto-alvo.
Ex. 2: Specialists are convinced that the WTC Twins were demolished rather than crashed down by the airplanes.
Os especialistas estão convencidos de que a causa da queda das torres gêmeas foi implosão, e não a colisão com os aviões como antes se pensava.
Neste exemplo, o tradutor reconstruiu sintaticamente todo a oração subordinada objetiva indireta, substantivando os verbos demolish e crash, acrescentando o substantivo causa, o verbo-cópula ser e o predicativo do sujeito, além de uma oração adverbial no final do período. Esse tipo de construção mais nominalizada que verbalizada é muito comum em textos jornalísticos no Brasil. No inglês, a tendência parece ser inversa – os jornais em língua inglesa, de acordo com nossa observação, parecem preferir a verbalização.
Ex. 4: The father arrived, hugged his daughter and kissed her in the mouth.
Ao chegar, o pai deu um abraço em sua filha e a beijou na testa.
No exemplo 4, o tradutor decidiu reconstruir semanticamente o período e substituiu o referente boca por testa. Ao ser indagado sobre o porquê da escolha, o tradutor em questão afirmou que, no Brasil, é muito incomum um pai dar um beijo na boca de sua filha de 15 anos e preferiu usar uma estrutura semântica que não chamasse a atenção dos leitores, mais “neutra”.
Ex. 5: Oh, your test was not bad at all, Alex.
Alex, sua prova está muito boa.
No exemplo 5, o tradutor decidiu reconstruir o vetor de sentido negativo do texto-fonte e transformá-lo num texto-alvo com vetor de sentido positivo, utilizando para tanto o procedimento de reconstrução semântica.
1.3.2.6 Equivalência estilística
A equivalência estilística, também conhecida como melhoria, é usada quando o tradutor inclui no texto padrões retóricos relacionados com a tipologia textual a qual o texto pertence. Esse recurso é utilizado geralmente para explicitar características estilísticas da tipologia textual não presentes no texto-fonte.
Ex.: The little girl said she was carrying a basket of food to her grandmother.
A menininha disse que estava levando uma cesta de doces para a vovozinha.
Neste exemplo, o tradutor utiliza o procedimento de equivalência estilística para traduzir basket of food por cesta de doces e grandmother por vovozinha. Após identificar que o texto-fonte pertence à tipologia textual conto infantil, o tradutor decidiu explicitar, no texto-alvo, padrões retóricos pertencentes a essa tipologia que não estavam explícitos no texto-fonte.
1.3.2.7 Mudança de registro
A mudança de registro ocorre quando o tradutor decide traduzir um texto com registro informal para linguagem formal (ou neutra) ou vice-versa.
Ex.: Hey, asshole, I’m going to bust your head all over this fucking parking lot!
Ei, seu babaca, eu vou estourar seus miolos por toda essa droga de estacionamento!
Neste exemplo, o tradutor evitou utilizar palavras ofensivas de baixo calão e decidiu “neutralizar” o registro do texto. No entanto, essa decisão nem sempre cabe ao tradutor. As agências de tradução que prestam serviços de tradução para dublagem e legendagem de material áudio-visual, por exemplo, possuem regras estritas de uso de palavras de baixo calão e coloquialismos. Os tradutores que trabalham para tais agências precisam seguir os manuais de estilo fornecidos pelas empresas.
1.3.2.8 Mudança de complexidade/fluidez estilística
O procedimento de mudança de complexidade/fluidez estilística é mais amplo, e sua observação pressupõe a análise de todo o texto traduzido. A mudança na complexidade estilística do texto é alcançada através do uso de outros procedimentos tradutórios domesticadores do sistema linguístico, do estilo e da realidade extralinguística. Esse procedimento é utilizado quando, por alguma razão, o tradutor ou o cliente consideram que o texto original é complexo ou simples demais estilística ou semanticamente e o público-leitor, por essa razão, não o aceitaria naturalmente.
1.3.2.9 Adaptação
O procedimento de adaptação também só pode ser observado a partir de uma análise de todo o texto traduzido e é alcançado através de outros procedimentos descritos neste trabalho. A adaptação ocorre, por exemplo, quando um texto originalmente escrito para o público adulto é traduzido para ser publicado para o público infantil, ou quando o texto-fonte foi escrito originalmente para o cinema e é traduzido para ser publicado como romance. A adaptação pressupõe mudanças profundas no estilo do texto, adaptando-o ao novo contexto editorial e/ou ao público ao qual se destinará a tradução.
1.3.3 Domesticação da realidade extralinguística.
Os procedimentos de domesticação da realidade extralinguística implicam mudanças ou substituições dos itens culturais e referências exóforas presentes no texto-fonte.
1.3.3.1 Transferência
Transferência é a substituição de um item cultural do texto-fonte num item cultural de mesma função no texto-alvo.
Ex. 1: Mount McKinley has the height of 135 Statues of Liberty.
O Monte McKinley possui a altura equivalente a 165 estátuas do Cristo Redentor.
Neste exemplo, o tradutor decidiu substituir a referência à Estátua da Liberdade por uma referência mais próxima do público-alvo, já que muito mais brasileiros têm idéia aproximada da altura do monumento ao Cristo Redentor que da Estátua da Liberdade novaiorquina.
Ex. 2: My daughter is going to throw a great party at her Sweet 16.
Minha filha vai dar uma grande festa nos seus 15 anos.
No exemplo 2, o tradutor decidiu substituir o referente à festa de debutantes aos 16 anos nos EUA e Inglaterra pela referência à tradição latina de celebrar o começo da idade adulta aos 15 anos.
Ex. 3: Jesus é o Cordeiro de Deus.
Jesus é a Foca de Deus. (tradução da Bíblia para a língua Ynuit)
No exemplo 3, os tradutores da Bíblia para a língua Ynuit dos esquimós habitantes do Norte do Canadá e Groenlândia expressam sua preferência pela domesticação através de transferência de itens culturais dos judeus palestinos para itens conhecidos de fácil compreensão dos esquimós que possuem as mesmas importância e função nas duas culturas.
1.3.3.2 Explicação
O procedimento de explicação é utilizado quando o tradutor acrescenta, no texto-alvo, um aposto elucidando a composição ou função de um determinado elemento da cultura a que pertence o texto-fonte. A explicação pode vir entre parênteses ou entre vírgulas (explicação intratextual), ou em nota de rodapé, nota do tradutor (NdT), nota de fim de livro ou no prefácio (explicação paratextual). As edições da Bíblia para estudo contêm muitas explicações paratextuais sobre termos-chave das línguas dos originais para acrescentar elucidações sobre polissemias e implicações não expressas pela tradução.
1.3.2.3 Ilustração
O procedimento de ilustração é utilizado quando o tradutor acrescenta ao texto formas gráficas, ícones ou desenhos/fotos para tornar clara a tradução do texto-fonte. Este procedimento é geralmente utilizado em manuais técnicos, em que fotos dos aparelhos, botões, substâncias ou materiais referidos no texto-fonte aparecem ao lado de seus referentes.
As descrições dos procedimentos técnicos de tradução independem de qualquer julgamento quanto à legitimidade ou à adequação de uso. O emprego de cada procedimento é altamente dependente do contexto tradutório e das personagens envolvidas no contrato de tradução. Cabe aos pesquisadores de tradução, principalmente aos que realizam pesquisas cognitivas através de protocolos verbais e textuais, investigar como e por que os procedimentos são utilizados nos mais diversos contextos tradutórios, tanto em tradução técnica como em tradução literária.
Por fim, é possível dizer que as fronteiras entre os procedimentos não são estáticas e por vezes podem se apresentar congruentes. Procedimentos de transposição e reconstrução podem se confundir em determinadas situações, os limites da adaptação e da mudança de registro podem não se apresentar claros, os procedimentos de paráfrase e explicitação podem, em determinados contextos, ser considerados congruentes, dentre muitos outros problemas de análise detectados. Cabe ao pesquisador e ao crítico de tradução estabelecer essas fronteiras onde a tabela aqui apresentada possui hiatos.
Abstract: This article presents a new, recategorized and enlarged table of translation procedures based on the previous works of Barbosa (1990) and Lanzetti (2006). The procedures were categorized according to the translation paradigms proposed by Schleiermacher (2001a & b), namely – the foreignizing and domesticing translation paradigms. Based on this recategorization, we redefine existing translation procedures and include others as of the analysis of translations done by translators in training and professional translators collected within the years of 2006 and 2008.
Key words: translation, translation procedures, Schleiermacher
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, Heloisa Gonçalves. Procedimentos técnicos da tradução: uma nova proposta. Campinas: Pontes, 1990
CATFORD, J. C. A linguistic theory of translation. Oxford: Oxford University, 1965
LANZETTI, Rafael. Domesticação e Estrangeirização nas Estratégias e Procedimentos Tradutórios de Tradutores Aprendizes. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras. Dissertação de Mestrado do Programa Interdisciplinar de Lingüística Aplicada, 2006
NEWMARK, Peter. Approaches to translation. Oxford: Pergamon, 1981
NIDA, Eugene. Toward a science of translating: with special reference to principles and procedures involved in Bible translating. Leiden: Brill, 1964
___________ . Principles of translation as exemplified by Bible translating. In: BROWER, Reuben A. On translation. Nova Iorque: Oxford University, 1966
SCHLEIERMACHER, Friedrich E. Über die verschiedenen Methoden des Übersezens, 2001a. In: HEIDERMANN, Werner (org.) Antologia: Clássicos da teoria da tradução. Vol. 1: alemão-português. Florianópolis: Editora UFSC, p. 27-86, 2001a
SCHLEIERMACHER, Friedrich E. Sobre os diferentes métodos de tradução. Trad.: Margarete von Mühlen Poll, 2001b. In: HEIDERMANN, Werner (org.) Antologia:
Clássicos da teoria da tradução. Vol. 1: alemão-português. Florianópolis: Editora UFSC, p. 26-87, 2001
VÁZQUEZ-AYORA, G. Introducción a la traductología: curso básico de traducción. Washington: Georgetown University, 1977
VINAY, J.-P. e DARBELNET, J. Stylistique comparée du français et de l’anglais: méthode de traduction. Paris: Didier, 1977

Tuesday, August 9, 2011

La vita è mobile



Olá a tod@s,

acabo de mudar completamente meu modus operandi e vou relatá-lo aqui porque pode beneficiar mais alguém - decidi tornar minhas ferramentas de trabalho mais portáteis, e prevejo um ganho em praticidade, funcionalidade e produtividade.

Sou carioca, mas atualmente moro e trabalho no exterior. Não sei ao certo o que pode acontecer em 3 ou 6 meses, se serei transferido para outro país, ou se simplesmente decidirei retornar ao Brasil. Por conta disso, decidimos (minha esposa e eu) investir em equipamentos que possam ser carregados dentro de malas. Qualquer coisa que ultrapasse a barreira dos 158 centímetros de largura + altura +  comprimento já vai dificultar a nossa vida.

Sou usuário de produtos Apple (que é quase a mesma coisa que dizer que sou dependente tecnológico) e até agora utilizava um iMac 21" (cujo transporte do Brasil para cá exigiu um planejamento bélico) e um MacBook Pro 13" para quando precisasse de um computador on the road.

O fato de ter dois computadores já me embananou algumas vezes: pensava que tinha transferido o arquivo de um pra outro e não tinha, esquecia de instalar no outro um determinado programa que utilizava no um etc. O que me salvava era sempre o LogMeIn, que me permitia ter acesso remoto do iMac em casa de onde eu estivesse. Quantas vezes minhas aulas foram salvas pelo LogMeIn...

O outro problema decorrente de se ter dois computadores é a dificuldade de portabilidade dos desktops. Eu acredito que o futuro da computação será portátil (vide a tendência do uso de tablets), mas sempre fui meio avesso à ideia de me livrar do desktop por 2 motivos: 1. ergonomia e 2. produtividade

Convenhamos, é impossível encontrar uma posição confortável para se utilizar um laptop - teclado e tela não se desgrudam, tela muito pequena, carcaça que esquenta as pernas, trackpad etc.

Mesmo com todas as melhorias implementadas pela Maçã em seus MacBooks (como os gestos multitouch do trackpad, por exemplo, sem os quais eu não conseguiria mais trabalhar), os laptops ainda são terrivelmente não-ergonômicos e prejudicam a produtividade.

Produtividade é um nível de eficiência de trabalho que só pode ser atingido em condições ideais - dentre as quais destaca-se (a meu ver) a ergonomia. Sempre achei importante investir numa boa mesa e principalmente numa excelente cadeira para se trabalhar com o computador. Para conseguir atingir os requisitos básicos para a produtividade, não há nenhuma outra ferramenta mais adequada que o famigerado desktop. Como então resolver o problema da portabilidade sem prejudicar a produtividade?

A decisão que tomei e considero acertada é a de exterminar para sempre o desktop da minha vida. A partir de agora, utilizarei apenas laptops. Para mim, profissional que trabalha com textos, apresentações de slides, planilhas, softwares específicos voltados para a tradução e para a educação, isso será possível devido ao lançamento dos novos modelos dos (quase) perfeitos MacBook Airs.

Os novos MacAirs com, por exemplo, 13", processadores Core i5 e 4 Gb de RAM possuem poder de fogo muito maior que o de que esse tipo de profissional precisa atualmente. Na verdade, esse novo MacBook Air que adquiri é o computador mais poderoso que já tive.

As vantagens são inúmeras - com um computador apenas, sei exatamente onde estão todos os meus arquivos, todas as ferramentas de que preciso, posso levá-lo para onde quer que vá, seu peso é sinceramente desprezível e cabe em qualquer pochete.

Mas... ainda é um laptop, com todos os seus intrínsecos problemas ergonômicos. Para resolvê-los, o segredo: um Cinema Display de 27" para ficar em casa. Com um cabo apenas que se divide em três (USB, energia e Mini-display ou Thunderbolt), deixo o MacAir num suporte em pé sobre a mesa (ocupando quase nenhum espaço), não preciso de um fio extra para ligá-lo (a energia é provida pelo próprio monitor), tenho uma resolução melhor que a de qualquer TV em alta definição (2560x1440), 27" ao meu dispor para não precisar de 2 monitores, webcam e alto-falantes embutidos, não precisa ser desligado (consome menos de 1W de energia em modo de espera), mais leve e menor que um iMac de mesmo tamanho de tela.

Para usuários de drogas PCs, as escolhas são ainda mais variadas. Considere se mudar a sua configuração de trabalho não aumentaria a sua produtividade. Penso no caso de um professor, por exemplo, que precisa preparar suas aulas em casa e depois aplicá-las in loco. Ter um laptop ligado a um monitor em casa para oferecer-lhe o conforto necessário à complexa arte de preparar aulas e depois poder levar o mesmo laptop para dar a aula preparada é uma estratégia que poupa tempo, complexidade logística e até energia elétrica (visto que laptops são mais eficientes energeticamente que desktops).

Desktops nunca mais. O futuro é portátil.

Abraço,
Rafael Lanzetti

Friday, July 8, 2011

Moro na Europa porque sou pobre

Estou ficando cada vez mais assustado com o que tenho lido e ouvido sobre o custo de vida no Rio e em São Paulo. Aluguéis de quatro dígitos, apartamentos de 30 milhões, iogurte de dez reais, pipoca em show de rock por 30, e daí pros ares.

Moro em Hamburgo, Alemanha, num apartamento alugado. Aqui não há luxo, a não ser para os muito ricos. O prédio não tem elevador, não tem porteiro, não tem faxineiro. Cada um varre a sua cota de escada e cuida das lâmpadas queimadas na sua parte do corredor. Viver num condomínio de classe média no Brasil, com porteiro, 2 elevadores por bloco, delivery 24 horas, piscina, sauna, área de lazer e afins é um sonho impossível para 95% dos alemães. Viver no Brasil é infinitamente mais confortável. Será?

Quando boto o pé pra fora do meu apartamento, a Alemanha começa a ficar mais atraente. Em primeiro lugar, não preciso trancar a porta, simplesmente fecho-a e vou-me. Ao sair do prédio, um ponto de ônibus com um placar eletrônico dizendo quantos minutos o próximo no. 25 vai demorar para chegar. Pego o ônibus, salto 15 minutos depois na estação de metrô. Quando chego, o metrô está me esperando para sair (os horários são coordenados). Dez minutos depois, chego à estação onde tenho que saltar. Um minuto depois, estou no meu local de trabalho. O valor do transporte é descontado de meu salário mensalmente - o que me permite pegar qualquer meio de transporte, quantas vezes quiser (e não há roletas). Se fico doente, vou imediatamente ao médico. Os exames e remédios estão incluídos no valor que pago pelo seguro de saúde.

Durante muitas décadas, o custo de vida nos países europeus foi visivelmente maior que na América do Sul; agora, as coisas estão gradativamente mudando de figura.

Meus gastos com contas diversas e moradia aqui são mais ou menos os mesmos que tinha no Brasil no ano de 2009. Com transporte, gasto menos da metade do que gastava no Brasil. No supermercado, o gasto fica mais ou menos pela metade. Os produtos eletrônicos nos custam aqui por volta de metade (por vezes menos) do que custam no Brasil (e isso para um nerd é fator crucial para determinar qualidade de vida).

Aqui, pago impostos muito altos (para o padrão europeu) que correspondem a mais ou menos 3/4 dos impostos que pagava no Brasil. Em troca, no entanto, transporte e saúde de alta qualidade, além de segurança, ordem pública, opções de lazer (gratuitas) e condições de viajar com muito mais frequência, já que os preços de passagens aéreas e estadia por aqui são, em média, metade do que se paga no Brasil.

Sabem por que o brasileiro tolera esse tipo de absurdo? Porque, infelizmente, o brasileiro médio não tem condições de passar 3 meses na Europa para comparar qualidade de vida, de serviços prestados e relação entre custo e benefício de se morar por aqui. A revolta verdadeira só pode ser sentida por aqueles que afortunadamente tiveram essa chance de atravessar o Atlântico.

É claro que meu argumento está baseado nas atuais condições da Alemanha que, diga-se de passagem, são bem diferentes de conjunturas de outros países na Europa, principalmente os de economia deficitária.

Mas a pergunta que permanece é esta: vale mesmo a pena morar no Brasil?

Wednesday, June 8, 2011

A Apple é filh#$@ da #$@#$%! Ou "Como sacanear muita, muita gente em 2 horas"

Na 2a feira, dia 6/06/2011, a Apple fez o keynote de abertura da Worldwide Developers Conference em São Francisco. Tio Jobs e seus acólitos apresentaram as novidades do Mac OSX Lion, do iOS 5 e as novas features de armazenamento, compartilhamento e sincronização de dados nas nuvens.

Em 2 horas, o keynote apresentou features consideradas "incríveis", "fantásticas", "mágicas", como bradavam em coro os espectadores online.

É inegável que as novas features do Lion, do iOS e do iCloud sejam mesmo fantásticas, mas... (e aqui entra o "[...] Espírito do Capitalismo" de Weber) as "inovações" da Maçã são, na verdade, uso capião de criações de desenvolvedores (tanto de apps aprovados pela App Store quanto jailbreakers).


Jobs já afirmou certa vez que "...o usuário nunca sabe o que quer, precisamos sempre mostrar-lhes o que querem." Depois de muito tempo, no entanto, a Maçã acabou por satisfazer as vontades dos usuários com funções imploradas desde tempos imemoriais, como um sistema de notificações mais discreto e efetivo.


Essa mudança de atitude foi, no entanto, exercida à base de cópia de APIs - tanto de outras plataformas, como Android; quanto de desenvolvedores autóctones, os que desenvolvem apps para jailbreakers. O novo sistema de notificações é baseado em vários apps do Cydia e nas notificações do Android, os updates em background já eram utilizados há muito tempo no Android (idem para os acessos rápidos à câmera e às notificações através da lock screen), o novo app de to-dos já existia em inúmeras versões, o Instapaper será substituído pela função reading list do Safari, a sincronização de fotos vai acabar com o Flickr, a sincronização de documentos vai acabar com os apps de edição de texto e apresentações (como Documents to Go, p. ex.), a sincronização de tudo vai acabar com o Dropbox, a agregação de revistas e jornais no Newsstand vai acabar com serviços como Zinio, o iMessage vai acabar com apps de mensagens instantâneas, o novo app da câmera vai acabar com muitos apps de câmeras que possibilitam edição de fotos... e por aí vai.

Para se ter uma pequena ideia do estrago, durante o keynote da Apple, quando a função Reading List do Safari foi apresentada, o desenvolvedor do Instapaper twittou apenas: "Shit."

Os desenvolvedores do Camera+, para citar outro exemplo, queriam introduzir a função de tirar foto com o botão de aumentar o volume do iPhone. A Apple negou, porque isso iria contra as regras de desenvolvimento, já que precisariam utilizar uma API privada. Sabendo disso, os desenvolvedores do Camera+ (aliás, o melhor app de câmera da App Store) "esconderam" a feature no código. Quem sabia disso, conseguia usá-la. A Apple, claro, descobriu a "falcatrua" e em dois tempos retirou o app da App Store. O app ficou muito tempo fora do ar. Na 2a feira, o que fez a Maçã? Apresentou o novo app de câmera com a função de tirar fotos com o botão de aumentar o volume!

A pergunta que definirá de vez o caráter maligno da Apple é: essa API estará à disposição dos desenvolvedores daqui em diante ou será exclusiva do app de câmera nativo?

Obviamente não vou deixar de ser um grande admirador da Apple e de seus produtos por conta dessas coisas, mas o impacto para os desenvolvedores dos apps envolvidos será muito grande, disso tenho certeza. Aí se desmascara o verdadeiro capitalismo selvagem - as estratégias maquiavélicas de se chegar ao poder.

O mundo é dos espertos que têm dinheiro e prestígio. Para se chegar lá, não basta ser capaz e eficiente, há de haver uma rara conjunção de aleatoriedades que permitam com que a pessoa progrida. Para se manter no topo, é preciso aproveitar-se dos mais frágeis, incorporando grandes ideias e humilhando as ruins, assim desmoralizando o inimigo.

A Apple - e mais especificamente a figura de Steve Jobs - sabe fazê-lo como talvez nenhuma outra empresa no mundo de hoje o saiba.

O keynote da Apple na WWDC 2011 foi uma grande sacanagem com muita gente, mas que foi fantástico, isso foi.

Abraço,
Rafael Lanzetti

Adendum: Retirado de http://www.engadget.com/ em 10.06.2011:


Wi-Fi Sync developer says he was 'fairly shocked' by Apple's similar Wi-Fi Sync feature

Wirelessly syncing a smartphone is hardly a new idea, but the developer of the Wi-Fi Sync app for iOS devices apparently thinks Apple's similar new feature in iOS 5 -- also called Wi-Fi Sync --is just a little too close to his for comfort. As you may recall, Greg Hughes submitted his "Wi-Fi Sync" app to Apple for App Store approval back in May of 2010 and was ultimately rejected, although not before he says he was told that Apple's engineers were "impressed" by his effort -- he then made the app available in the Cydia store, where it's been downloaded more than 50,000 times at $10 a pop. That was apparently working out just fine for him until this week, when he says he was "fairly shocked" to see Apple announce a Wi-Fi Sync feature of its own in iOS 5, complete with a familiar looking icon. Hughes went on to tell The Register that he was "surprised" by the similarities, but he hasn't offered any indication that he plans to push the issue any further.

Thursday, February 17, 2011

Civilização e confiança


Dentre as muitas coisas que diferem o Brasil da Alemanha, uma se destaca com mais visibilidade - a confiança mútua no bom caráter do cidadão alemão e praticamente o inverso no Brasil.

Explico melhor pra não começarem a me chamar de nacional-socialista antes do tempo:

No Brasil, a burocracia, as imposições do governo e as normas sociais dão a um observador externo a impressão de que, ao contrário do que diz a premissa básica do Direito, "todo cidadão é culpado até que se prove o contrário".

O fenômeno se dá em todas as instâncias da vida cotidiana - do brasileiro e do alemão. No Brasil, você paga a passagem (de ônibus, trem, metrô) e passa por roletas para provar que o fez. Na Alemanha, não há roletas. Todas as estações e todos os ônibus são livres - as pessoas entram e saem quando e por onde quiserem. Para tanto, compram a passagem em máquinas nos pontos (no caso dos ônibus) ou bilhetes semanais ou mensais que dão direito a utilizar qualquer meio de transporte, quantas vezes precisar.

Não é difícil imaginar como uma coisa simplória como essa facilita a vida do cidadão comum que utiliza transporte público todos os dias para se locomover até o trabalho - sem filas para entrar no ônibus, sem filas nos caixas das estações, mais lugares nos ônibus e - principalmente - a liberdade de ir e vir.

Você deve estar se perguntando como é feita a fiscalização de quem paga - e quem não paga - os bilhetes para usar os transportes públicos daqui. A resposta nos remete ao título do post, à confiança. Existe fiscalização - muito, muito raramente. Já passei ao todo muitos meses na Alemanha nessas 5 vezes em que vim para cá, e devo ter sido fiscalizado nos ônibus e metrôs umas 2 ou 3 vezes. É perfeitamente possível passar 1 ou 2 anos sem pagar e nunca ser pego. Alguém faz isso? Certamente sim, uma minoria ínfima de mal-caráteres que existe em qualquer lugar do mundo. Mas a esmagadora maioria não, e o sistema de transportes se sustenta sem dar maiores preocupações ou causar aborrecimentos aos usuários.

Na empresa em que trabalho, não há no momento "cartão de ponto". Em teoria, é perfeitamente possível trabalhar menos que as 8 horas diárias e possivelmente ninguém ficará sabendo. No entanto, o que observo é que todo mundo cumpre seu horário e com as suas obrigações, e o departamento de tradução recebe elogios atrás de elogios.

Ao fazer minha conta no Postbank, o banco gerenciado pelos Correios na Alemanha, perguntei que documentos precisaria levar. A resposta veio com uma espécie de afronta - "nenhum, apenas informações verdadeiras sobre você".

Isso para um brasileiro soa inverossímil. A troco de que uma instituição financeira acreditaria na minha palavra? Afinal, sou apenas um cidadão comum, provavelmente um mal-caráter que vai mentir ou omitir informações para tirar algum proveito... Pense em quantas cópias de documentos, autenticações (pra provar que você não é um falsificador), pilhas de nada-consta, atestados negativos e positivos (!) você já precisou providenciar para resolver questões simples do dia-a-dia no Brasil. Pense no quanto sua vida seria mais fácil se a sociedade civilizada pudesse confiar no cidadão e partisse do princípio que você é honesto até que se prove o contrário.

Na Alemanha (e estou falando especificamente de Hamburgo, a cidade mais suja e violenta da Alemanha), não há grades nas janelas, e as janelas do 1o andar dos prédios ficam quase no nível da rua. As lojas não precisam baixar aquela proteção de ferro horrorosa depois que fecham, você pode andar na rua portando o seu iPhone e ler seu iPad no ônibus - o sentimento de segurança (coisa que perdemos nas grandes capitais e grandes cidades do Brasil há algum tempo) é um daqueles que você só aprecia depois que tem.

Essa confiança mútua das pessoas nas pessoas, do governo nas pessoas, é o que transforma uma sociedade comum numa sociedade civilizada - e esse processo, longo e muito provavelmente dolorido, é fruto de uma mudança profunda na mentalidade das gerações descendentes dos bárbaros (vejam só) germânicos antigos.

Tenho a convicção de que a problemática da "falta de confiança mútua" do brasileiro se deve ao conjunto de dois fatores principais - pobreza e falta de educação.

Fruto da pobreza estabelecida ao longo dos 5 séculos de sociedade, a falta de educação é a responsável pela "malandragem", pela vontade de "se dar bem à custa dos outros", de "aproveitar a situação para tirar proveito próprio".

Infelizmente a visão de uma civilização com a confiança mútua daqui em grandes megalópolis como Rio e São Paulo é para mim completamente fosca. Será possível, ainda neste século, por exemplo, ver essas cidades sem lixo, sem catacras, sem a metade da burocracia atual, sem cópias autenticadas, sem desconfiança?

Quem viver, verá.

Quer comentar sobre isso e começar uma discussão sobre o assunto? Escreva abaixo!

Um abraço a tod@s,
Rafael Lanzetti

Sunday, January 9, 2011

Podcast Polipoiésis Episódio 01

Olá a tod@s,

apresento-lhes o episódio no. 1 do Podcast Polipoésis. Assunto de hoje: Apple iPad - características gerais, especificações, apps, versões futuras.

Comentários, críticas, sugestões, perguntas - utilizem os comentários!

PODCAST POLIPOIÉSIS - EPISÓDIO 01

Grande abraço,
Lanzetti

Update (13.01.2011): Agora no iTunes! Basta fazer a busca por "Polipoiesis".

Friday, December 31, 2010

Os melhores gadgets (e as melhores tecnologias) de 2010

Para findar bem o ano, nada como um geek escrever um post sobre os gadgets e as novidades que marcaram o ano de 2010. Mas, já que Engadget, Wired, 9to5Mac, MacLife, MacWorld, entre outros, já o fizeram, listo aqui o que mais me impressionou em 2010. Alguns dos itens acabei comprando, outros ficaram na wishlist. Vamos a eles:





Décimo lugar: Fones Bluetooth

OK, fones bluetooth já existiam antes de 2010, mas foi a partir de março que as grandes empresas começaram a produzir fones sem fio compatíveis com o iPhone e, posteriormente, com o iPad. A vantagem de se ter um fone bluetooth é basicamente a liberdade de movimentação. Enquanto ouve sua playlist ou seu podcast preferido, você pode ir a um outro cômodo, fazer number two, levantar-se um pouco, cozinhar, fazer exercícios, correr, sem precisar dar pausa no áudio. Pra mim, é a solução ideal, já que quase nenhum fio de fone vai do meu bolso da bermuda até as orelhas, o que me obrigava a ficar com o iPod/iPhone nas mãos o tempo todo. De vários que testei, recomendo dois em especial - o Philips SHB6110 (embora puxe bastante pros graves) e, principalmente o NOKIA BH-504 que, além de possuir excelente equalização e padrão e alcance ótimo, é dobrável, facilitando ainda mais o transporte.






Nono lugar: Jogos para iPhone, iPod Touch e iPad

Na nona posição, uma categoria inteira - todos os excelentes jogos lançados ou portados para o sistema iOS - Angry Birds, Cut the Rope, Bejeweled, Tetris, Scrabble, Reckless Racing, Real Racing, Real Soccer, Flight Control, Chopper, dentre muitos outros. Explico: até o começo do ano, era um feliz proprietário de um PSP (bloqueado), mas confesso que achava os joguinhos ainda muito mobrais, mas eram infelizmente o melhor que havia por aí. Com o processador A4 do iPhone e iPad, as coisas mudaram radicalmente - os jogos para iOS estão melhores, com gráficos melhores (vide Reckless Racing e o recente Infinity Blade), com a vantagem de possuir controles que tiram vantagem da tela multitoque. A grande crítica que eu fazia aos jogos para iOS eram os controles na tela (quando o jogo requer um direcional e botões), mas é questão de costume, já estou perfeitamente adaptado a eles. No entanto, a grande sacada dos desenvolvedores foi a de criar jogos cujos comandos não são botões e direcionais na tela, e sim multitoques em lugares específicos, tornando os jogos ainda mais interativos. Em suma, farwell, PSP...







Oitavo lugar: Logic Pro 9 + EWQL Symphonic Orchestra Platinum


Listo mais um item que foi lançado na verdade em 2009, mas a que só pude ter acesso em 2010 (yes, morar no Brasil es una mierda para os geeks, mas isso vai mudar...). O Logic é uma DAW (Digital Audio Workstation), um software para quem trabalha com áudio, gravações em home studio e, no meu caso, composição em MIDI. Para tanto, utilizo um piano digital (Clavinova CLP-130) como base de comando para ir compondo no Logic. Como biblioteca de sons, utilizo a East West Quantum Leap Symphonic Orchestra Platinum, um conjunto de 50 DVDs de samples de instrumentos reais de orquestra gravados em estúdio em um número incontável de velocidades e articulações. Essa biblioteca fica armazenada no computador e é acionada pelas teclas do controlador MIDI, no meu caso, o piano digital. Assim vou compondo instrumento por instrumento, juntando tudo em cascata. Depois de tudo junto, ainda preciso fazer a mixagem e a masterização. O resultado vocês podem conferir no meu Palco MP3. O ano de 2010 representou, portanto, uma reviravolta na maneira como faço música. E tudo graças à tecnologia.







Sétimo lugar: Sistema de assinatura do Netflix


Esse é um recurso a que, infelizmente, não tenho acesso no Brasil, mas que acho fantástico e revolucionou a maneira como se consome material audiovisual. O sistema existe exclusivamente nos EUA, onde as pessoas pagam por volta de US$ 10 e têm direito a fazer streaming de filmes e episódios de séries ilimitadamente para seus computadores, settop boxes, Apple TVs etc. US$ 10!!! Os filmes que você quiser! Na hora que quiser! E, com a velocidade das conexões de banda larga nos EUA, você vai precisar esperar não mais que 10-15 segundos pelo buffer... Preciso falar mais o quê?







Sexto lugar: FaceTime e Skype


Junto com o iPhone4, a Apple lançou o Face Time, valendo-se da câmera frontal do celular. É um recurso de vídeo chamadas, já presente em outros gadgets anteriores, mas revolucionado pela Maçã - nunca foi tão fácil fazer vídeo chamadas (e gratuitas!) pelo mundo. Claro, como moramos no Brasil, tivemos muitos problemas de ativação do recurso por aqui, muito por conta da imbecilidade e má fé das operadoras brasileiras, que abusaram da paciência dos clientes por longos 3 meses até a ativação. Aliás, algumas pessoas AINDA não conseguiram ativar o Face Time em seus aparelhos... Depois de ativado, basta chamar um outro iPhone ou iPod Touch e - tchum - som e vídeo na tela para uma chamada à la Jornada nas Estrelas e gratuita. Eu sonhava com isso quando era criança! Logo depois, a novidade foi portada aos Macs, mais uma grande sacada da Maçã. O problema era que o recurso ficava restrito aos felizes proprietários de produtos da maçã mordida - 0,0002% da população no Brasil, talvez? Mas... ontem, no penúltimo dia do ano, o Skype nos surpreende com a notícia de que liberaram a chamada por vídeo (inclusive em 3G, coisa que o Face Time ainda não faz) gratuita entre iPhones, iPods, PCs e Macs. Presentão de Ano Novo. Não tenho dúvida, no entanto, que o Face Time chegará a PCs no ano que vem e que as vídeo-chamadas serão liberadas também por 3G (não só por conexão WiFi).







Quinto lugar: iPhone 4


Diga a verdade - se você tem um iPhone, acha o telefoninho o máximo. Se você não tem, morre de vontade de ter um ou de inveja de quem tem... A quinta versão do telefone da Maçã (iPhone > iPhone2G > iPhone3G > iPhone3GS > iPhone4) veio com muitas novidades - câmera fronta, Face Time, Retina Display, Flash para a câmera traseira, capacidade de gravar vídeos em HD, um processador do caramba e suficiente RAM para "multitasking" (engana-bobo). Esse conjunto faz do iPhone 4 um smartphone como nenhum outro, mas basta comparar a qualidade (nem tanto a quantidade) dos apps da plataforma iOS para se chegar à conclusão. Esse iPhone tem, para mim, todas as funções necessárias que outros iPhones não tinham, exceto talvez um IR (infra-vermelho) para servir de controle remoto universal (que talvez nunca chegue aos iPhones futuros).








Quarto lugar: Airplay


A quarta posição fica com a facilidade do AirPlay - um recurso que permite que se faça streaming de música, foto e vídeo pela conexão WiFi. A partir de um gadget com iOS (iPhone, iPod, iPad) ou de um Mac, é possível enviar sua playlist, filmes e fotos, por exemplo, para a sua TV HD equipada com uma Apple TV. A alegria e a facilidade que esse recurso traz é inconcebível até você experimentá-lo. Imagine estar vendo um vídeo interessante no YouTube do seu iPod e, com o aperto de um botão, sem precisar ligar nada (a não ser a TV), enviar o vídeo instantaneamente para a sua tela de 42" para mostrar o vídeo a sua esposa/seu marido. Isso pra mim é mágico.







Terceiro lugar: Apple TV


Não dava nada para o settop da Maçã de US$ 99 antes de comprá-lo. Uma caixinha preta muito da mequetrefe (menor que um estojo de DVD), com um controle remoto de 4 botões, sem botão de liga-desliga. Mas, com toda a simplicidade funcional que só a Maçã sabe desenvolver, a Apple TV me permitiu utilizar um dos recursos mais úteis que já experimentei até hoje - o AirPlay (descrito acima). Além disso, você pode alugar filmes e seriados (episódios de séries a US$ 0,99) diretamente sem utilizar computadores ou outros gadgets. Dá pra ver YouTube, escutar música, assistir a vídeos por streaming do seu computador ou de qualquer gadget com iOS. Escutar música enquanto você vê uma apresentação de slides animados com suas fotos dos álbuns do Mobile Me é bem legal.







Segundo lugar: Tecnologia 4G


Outra coisa que não teremos tão cedo em Terra Brasilis, mas já dá pra ficar babando - em 2010, a tecnologia 4G foi lançada nos EUA, ainda em duas versões (vamos ver quem ganha, Verizon ou AT&T). A tecnologia nada mais é que a transferência de dados a partir de dispositivos móveis em qualquer lugar em altíssima velocidade (a velocidade de transmissão pode chegar, nos próximos anos, a 1Gbps!). Já imaginaram o que dá pra fazer com essa velocidade e um iPhone ou um iPad 3G nas mãos? Além disso, a tecnologia expande a malha de frequência do espectro atribuído às operadoras, isto é, não haverá perda de velocidade tão acentuada quando muita gente estiver utilizando o serviço ao mesmo tempo. Ah, a tecnologia...

Melhor gadget de 2010


Podia deixar de ser? Pensei nisso, mas não deu. É ele mesmo. Ele é daquelas coisas que você tem orgulho de ter, e que não saem de perto de você. Com muitos gadgets, quanto mais você os usa, mais defeitos você vê neles e menos vontade de usá-los você tem. Já com o vencedor do ano, quanto mais você o usa, mais o quer usar, porque mais utilidades vão sendo agregadas a ele. Apps fantásticos, uma tecnologia multitoque responsiva como só a Apple sabe fazer, mobilidade, bateria de 10 horas de duração, peso razoável, confiável e estável. Como vocês já sabem do que estou falando, vou listar aqui as principais coisas que faço com ele:

1. Navegar na Internet - o navegador Atomic Web Browser é simplesmente incrível: possui abas, salva páginas para leitura offline, envia links por e-mail, compartilha-os, é estável e rápido;

2. Verificar e-mail - o app de Email do vencedor do ano é muito bem escrito e, com o teclado na horizontal, responder a emails por ele é tão fácil quanto em qualquer computador;

3. Gerenciar contatos e agenda - com a sincronização com o Mobile ou com o Google, é possível gerenciar sua agenda e seus contatos, que ficarão sempre armazenados na nuvem, com a certeza de que você nunca irá perdê-los;

4. Anotações - existem apps muito bons para anotações de reuniões e aulas. As anotações podem ser digitadas, desenhadas na tela, o áudio pode ser gravado, imagens e sites podem ser utilizados e depois tudo pode ser enviado por e-mail ou compartilhado no Twitter e no Facebook. Um bom app pra isso é o Sundry Notes;

5. Produtividade - o processador de texto Pages e o app de apresentações Keynote são o que qualquer pessoa esperaria que fossem - práticos e eficientes. É perfeitamente possível digitar textos pequenos ou médios no Pages e configurar a página da mesma maneira que você a configuraria no Pages para Mac. As apresentações no Keynote ficam com visual bonito, excelentes animações e transições e podem ser projetadas por um datashow ou passadas para uma TV HD por meio do adaptador Dock-to-VGA e um cabo VGA comum. É possível trabalhar com ele? Sim, dependendo do tipo de trabalho que você tenha;

6. Entretenimento - ver filmes, episódios de séries, ouvir música, ver vídeos no YouTube - tudo isso fica bem mais fácil quando se tem o vencedor do ano. Nada como ter essa experiência deitado no sofá ou na cama;

7. Jogos - tanto jogos casuais quanto hardcore - tudo é possível nele (como descrevi acima);

8. Informação - não há nada melhor em termo de experiência de uso quanto ler jornais e revistas no vencedor do ano. Revistas interativas com vídeos, textos com animações e preços menores que os cobrados pelas edições impressas. Ah, a tecnologia...

9. Ler - embora os defensores do Kindle tenham razão quanto à refletividade da tela do vencedor do ano (que impossibilita qualquer leitura sob o sol), para mim, que não vou à praia para ler, o vencedor do ano é o gadget ideal para leitura. Além de cores, a interatividade com os livros é incrível - anotações, dicionários, pesquisas online, compartilhamento... E para os que dizem que a iBooks Store não tem nada,  o vencedor do ano tem acesso à Google eBook Store e à Kindle Store;

10. Utilidades - o vencedor do ano possui um sem número de apps de utilidades. Para mim, uma carrada de instrumentos virtuais (piano, acordeon, xilofone, violão etc.). E é perfeitamente possível utilizá-los pra valer, como já demonstrou meia dúzia de bandas que utilizaram o vencedor do ano como instrumento (vide Gorillaz). Além disso, o vencedor do ano pode servir de controle remoto para seu Mac ou PC, para a Apple TV, pode servir como tela de pintura, pode controlar remotamente seu computador, servir de relógio com alarme noturno, interface de streaming de vídeo e áudio, edição de vídeos e fotos, dentre muitas, muitas outras coisas.

E aqui está a pergunta que conclui minha decisão: você conhece algum outro gadget que exerça todas essas funções com a elegância e a confiabilidade com que o vencedor do ano o faz?

Bem, o desejo de todo geek é que o ano vindouro traga mais novidades interessantes e que tenhamos dinheiro para comprá-las!

Um ótimo 2011 para tod@s!

Grande abraço,
Lanzetti